Há cerca de quarenta anos, Francisca, seus dez irmãos e seus pais
moravam em uma fazenda em Buritis, nas altas terras de Minas Gerais, perto do
Espírito Santo.
Ela tinha onze anos e seus irmãos eram vinte anos mais velhos do que
ela. Todos eles eram casados com filhas de empregados do seu pai, um coronel de fazenda dos tempos do coronelismo.
Todas as manhãs Francisca ia com seu pai colher frutas, verduras e
legumes, também arroz, trigo etc; e depois
levava para sua mãe fazer o almoço e o
jantar da família, já que todos moravam na "casa grande", apelido que
eles deram à sede da fazenda.
seus irmãos ajudavam o pai na labuta da
terra, no cuidado com o gado, cavalos, porcos, arrumando cercas,
estábulos, entre outros afazeres que os homens estavam mais acostumados.
As esposas cuidavam dos animais de pequeno porte, da casa e também
ajudavam Dona Rosa a fazer requeijão, queijo, manteiga, doces caseiros,
iguarias que davam água na boca só de sentir-se o cheiro.
Aos sábados, como de costume, o Coronel José e os filhos
arrumavam as coisas na velha camionete e se dirigiam à feira da cidade
para vender estas gostosuras e entregar as encomendas que o povo lhes
fazia no sábado anterior.
Com o dinheiro arrecadado eles compravam açúcar, café, biscoitos e
guloseimas que Francisca gostava, bem como outras coisinhas que as
esposas pediam ou "mandavam".
E assim iam levando a vida, sem reclamarem de nada... quer dizer, eles
sempre reclamavam que a mãe exagerava nos temperos ao cozinhar, mas
Dona Rosa, na sua sabedoria matuta, dizia:
Dona Rosa - Comida boa tem que ter muita temperança!
Eles riam da sua ingenuidade e do seu modo simples de gente da roça,
mas a compreendiam e a amavam do jeitinho que ela era.
Naquela família ninguém mexia nas panelas para pegar sua comida. Ela
mandava todos sentarem-se à mesa, inclusive as noras e o marido, e
fazia o prato de cada um. Quando alguém reclamava da quantidade de
comida que ela colocara em seu prato, ela respondia:
Dona Rosa - Saco vazio num fica em pé. Tem que comer muito pra ter sustança!
E ai de quem não comesse tudo que estava no prato.
Realmente Dona Rosa exagerava, mas ficava por isso mesmo e acabou.
Quando Francisca fez onze anos, sua mãe lhe disse:
Dona Rosa - Fia, tá na hora de tu aprendê a cuzinhá pra me ajudá!
E ela aprendeu, e foi aprendendo, mas nunca exagerava nos ingredientes,
por isso seus irmãos preferiam mil vezes a comida da irmã do que a da
mãe, mas não se atreveriam a dizer isso pra ela.
Um dia, Francisca perguntou à mãe:
Francisca - Mãe, posso matar uma galinha e assá-la?
Dona Rosa - De jeito argum, fia. Ninguém aqui vai matá as galinhas do meu quintar!
Apesar do que a mãe dissera, no dia seguinte Francisca combinou com
dois de seus irmãos pegar uma galinha e assá-la, como eles estavam
desejando.
Quando a mãe saiu para buscar lenha na mata, Francisca chamou José
Luiz e disse:
Francisca - Vamos no galinheiro pegar uma galinha, Zé!
José - Tu tá maluca, mana? Mamãe vai descobrir e nos matar!
Francisca - Mata nada... nós é que vamos matar a galinha e comê-la assada!
José - - E o que a gente vai dizer quando ela ver a galinha morta?
Francisca - - Deixe comigo, que na hora eu invento qualquer coisa!
José - Será que ela vai acreditar?
Francisca - É claro, Zé! Ela acredita em tudo que os outros dizem, como não iria acreditar em nós, que somos seus filhos?
José - - Tá bem, Chica, vamos lá!
Francisca - E você, Luiz, fica vigiando pra ver se a mãe chega.
Eles foram ao galinheiro, escolheram uma galinha bem gorda e Francisca
torceu o pescoço da ave. A bicha nem deu um pio.
José - E se mamãe nos ver saindo do galinheiro com essa galinha, Chica?
Francisca - Não se preocupe, Zé, ela foi na floresta buscar lenha e deve demorar um bocado. Se você me ajudar, logo comeremos uma deliciosa galinha assada, Zé!
José - Já tô com água na boca, Chica.
Antes de irem até o galinheiro, Francisca colocara um caldeirão com
água pra ferver. Ao chegarem na cozinha, ela colocou a galinha na
água fervente. Em poucos minutos Zé estava depenando a galinha,
enquanto Francisca preparava os temperos e o forno para assar o
galináceo.
Quando a ave estava no forno assando, Luiz José gritou:
Luiz José - A mãe está chegando!
E era verdade. Quando Dona Rosa chegou com um feixe de
lenha e sentiu aquele cheiro gostoso, perguntou:
Dona Rosa - Fia, qui é qui tá nu forno cum esse cheirim gostoso?
Francisca - É uma galinha, mamãe!
Dona Rosa - Fia, num vá mi dizer qui me desobedeceu e matô uma das mias galinhas?
Francisca - Não, mãe! Eu nunca faria isso com suas galinhas.
Dona Rosa - - É verdade, fia? E cumo uma foi pará dentro do forno, fia?
Francisca - - Foi eu e o Zé que a encontramos mortinha de dá dó, não foi, Zé?
José (gaguejando) - F-foi sim, Chica!
Dona Rosa - E cumo foi qui ela houve de morrê, fia?
Francisca - Nós a encontramos com o pescoço quebrado, enfiado na cerca de arame do galinheiro, mãe.
Dona Rosa - E cumo ela foi metê o percoço no arame, fia?
Francisca - Mãe, acho que a galinha se enforcou.
Dona Rosa - É verdade, fia. Vô lá ingorinha mermo... sua galinha tá cheirando pur dimais, fia.
Francisca - Também acho, mãe... então vamos comê-la no jantar.
Dona Rosa - Tá bom, fia... daqui a porco vorto pra fazê a salada.
Francisca - Tá certo, mãe.
Dona Rosa pegou o saco da ração e saiu em direção ao galinheiro.
Francisca virou-se para o irmão e falou:
Francisca - - Tá vendo, Zé? Foi fácil demais.
José - - Foi sim, Chica, só espero que papai não descubra que enganamos a mamãe.
Francisca - - Ele não vai descobrir nada, Zé. Vou dizer pra ele, na frente dela, que foi ela quem preparou essa deliciosa galinha assada pra família.
José - É, acho que ela ficará contente!
Francisca - E se eu não estiver enganada, papai vai elogiá-la tanto que ela fará galinha assada mais vezes.
José - Tem razão, mana!
E os dois, rindo, foram colocar a mesa do almoço.
(FIM)
Kevin Melo, Serra (ES), 2018
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